Domingo

Lucidez em excesso

“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

C. Lispector

Terça-feira

Sentimentos

Sinto ter perdido o bonde.
Não ter prestado atenção ao calendário, ao horário, ao tempo.
Sinto estar perdido ao acaso, no espaço, ao vento.
A minha caixinha de lembranças está perdida, em algum lugar.
Não tenho mais os meus "recuerdos", a minha história, a minha imagem.
Tenho uma amiga, que por sinal é a que mais amo e que o tempo e as circunstâncias estão tratando de distanciá-la de mim.
Sinto que em outras vidas eu a ninei no colo, a alimentei e coloquei para dormir.
Agora só me resta o vazio.
O oco.
O invisível.
Meu espelho confessionário mais uma vez se parte.
Mais sete anos.
Mais sete vidas.
Pena.

C.