Percebo, mesmo que de relance, as cortinas se fechando pouco a pouco.
O meu show à luz dos spots está se despedindo dos palcos da vida e me desespero como criança tola que sou.
Não poderia desta vez justificar certas incapacidades com o medo. Medo esse já sobrecarregado.
Estou neste momento com um cigarro aceso
e um pouco inebriado de algumas cervejas tomadas ao longo deste dia estafante.
Quero nem que seja por uma fina meada, acreditar que nada está perdido. Que ainda estarei em cartaz amanhã ou depois, quando você passar por esta mesma rua.
Mas nada é tão certo quanto os dedos que aqui trabalham freneticamente, traduzindo em palavras escritas o que penso e não falo. O que penso e me calo.
Meu único presente este ano foi um livro espírita.
Mascarei minha inquietação.
Já se foi o tempo aos pés da grande árvore de frutos coloridos e "pasme", falsos.
O ano está acabando como areia em uma ampulheta. É a vida se esvaindo.
As luzes estão cada vez mais apagadas, acendendo o meu desespero de figurante. Abre-se um buraco sob meus pés e nele, flutuo. Mas as cortinas se fecham, selando de uma vez por todas o que nunca foi visto.
O show acabou.
Domingo
Sexta-feira
Priscila
A tarde era de Sol. Contrariando todas as previsões noticiadas com temor. O mau tempo havia dado espaço para o céu azul e a cantoria dos passarinhos. Eu ainda estava com sentimentos tristonhos no peito. Sensações de abandono, incapacidade, medo...
Ouvir sua voz doce naquele momento foi uma salvação. Escutar você ler o seu/meu texto foi sublime.
Às vezes passamos a vida inteira buscando sentidos e razões para continuar.
Busco, além da minha própria imagem frente ao espelho, outras imagens, de outras pessoas que, no fundo, enxergo a mim mesmo. Espelho confessionário que inúmeras vezes me mostrou o teu rosto. Cravando em minha memória suas feições de menina.
Por mais que a vida me empurre para o erro, sei que encontrarei compreensão e um ombro mais que amigo pra lamentar. Encontrarei também uma mão, que nas horas de maior sufoco, sempre esteve estendida para me ajudar a levantar.
Sabe, às vezes, sozinho em meu canto, choro ao lembrar-me de você. Clarice me diz que é saudades.
Chorar lava a alma.
Mas não somente a alma, lava e renova também o meu amor. Amor esse refletido nos mil pedaços do meu espelho confessionário que já não é mais. Mas a sua forma não importa. Nenhuma forma consegue circunscrevê-lo e altera-lo.
Espelho é luz!
Um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo.
C.
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