Que desespero é esse meu Deus, que toma de assalto o meu peito e que me deixa desnorteado?
Não quero me dar conta da gravidade de minhas ações para que em um momento louco de lucidez eu não julgue ao meu próprio eu. Ao meu próprio pensar...
Quero a calmaria de quem está apenas se deixando levar pela maré.
As vezes, sinto um enorme desprazer no presente em que se segue.
Apesar de o presente ser apenas o passado.
O presente em que se segue, é passado.
O que escrevo é passado.
Preciso lembrar que devo esquecer de regar as plantas.
C.
Eu, alquimista de mim mesmo. Sou um homem que se devora?
Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos meus modos de existir.
Vivo de esboços não acabados e vacilantes.
Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.
Vivo na escuridão da alma, e o coração pulsando, sôfrego pelas futuras batidas que não podem parar.
Clarice Lispector
Terça-feira
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