terça-feira

Clarice Lispector - Fragmento "Um sopro de vida"

Eu sinto uma beleza quase insuportável e indescritível.
Como um ar estrelado, como a forma informe, como o não-ser existindo, como a respiração esplêndida de um animal. Enquanto eu viver terei de vez em quando a quase não-sensação do que não se pode nomear.
Entre oculto e quase revelado. É também um desespero faiscante e a dor se confunde com a beleza e se mistura a uma alegria apocalíptica.

domingo

Transição

Tirei esta tarde para reler meus textos.
Me surpreendi ao perceber que durante 2 (dois) anos, relatei estar perdido no mundo ou talvez apenas dentro do meu próprio eu.
Acredito ter incrivelmente vivido todo esse tempo em stand by e o pior de tudo, ter aceitado esse boicote pessoal.
Pergunto-me agora: Por que diabos eu não fui egoísta?
Sempre colocando as pessoas à frente das minhas vontades, tentando agradar a todos ao mesmo tempo, escondendo as minhas franquezas, engolindo sapos, rãs, pererecas e afins.
Fui hipócrita!
É terrível para um ser humano chegar a essa conclusão de si mesmo. Talvez até mais do que terrível, seja derrotante.
Antes do ano acabar, entrei “lúcido” em uma crise cerebral enlouquecedora. Não sabia o que estava buscando, qual resposta achar e para qual pergunta designá-la.
O fato é que nesta busca, acabei por me encontrar, ou talvez apenas uma fotocópia, velha e empoeirada, do que seria eu antes. Realizador de desejos e autêntico.
Voltei desta viagem louca trazendo comigo esta imagem reveladora e modificadora.
O ano passa, os dias correm freneticamente para que mais um ano seja enforcado. Só que desta vez estarei/estou alerta.
Não deixarei mais que este tempo, que me é precioso, escape sem tomar nenhuma atitude.
Vou primeiro passando verniz nos móveis. Posso também encaixotar pequenos objetos e talvez lembranças desnecessárias.
A hora de mudar chegou. Não posso mais espera-la como se espera que dinheiro caia do céu. (Todos na face da Terra esperam isso)
Preciso de movimento, preciso dar o primeiro passo, preciso executar manobras delicadas, preciso acreditar em mim.
Sim, eu preciso.

C. Coga